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smobile

conceitos sob o ponto de vista do observador

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conceitos sob o ponto de vista do observador

Assassinos do tempo.

A ideia generalizada retida é a de que os nossos adolescentes e jovens adultos (faixa até aos 25 anos) são indolentes.

Na falta de um melhor termo, são uns moles.

"Não fazer nada" representa, aliás, uma das principais actividades características das culturas juvenis. Por seu lado, falar, conversar, estar (por estar) com os amigos representam dos mais frequentes modos de "não fazer nada".Os assuntos das conversas não têm de ser reais, podem ser histórias fictícias (...). O importante é ter ideias originais, e, algumas vezes, uns "copos" e uns "pós" - dizem alguns - ajudam a ter ideias originais.

Na Dorninha, por exemplo, alguns jovens emborrachados acham original, nas noites de fim-de-semana, interromper o trânsito, rebolando-se pelo chão, e insultando os estupefactos condutores por os não deixarem deliciar-se tranquilamente com o leito do asfalto.(...)

 

"Matar o tempo" envolve uma astúcia, uma perícia, uma arte que um bom assassino de tempo deve possuir (...). É neste "não fazer nada" que se produzem as solidariedades e identidades grupais; é nestas ritualidades que se geram as múltiplas construções (e distorções) juvenis da realidade.

Para alguns jovens, a melhor forma de matar o tempo é deixá-lo passar... não têm receio de ser atropelados pelo tempo. O futuro e a continuidade do presente. Um presente que é, por vezes, monótono(...).

No pólo oposto, há jovens que procuram ultrapassar o tempo, evadindo-se do quotidiano, vivendo-o o mais depressa possível, por entre pedradas, trips e viagens alucinantes. in PAIS, José Machado, "Culturas Juvenis", Lisboa, Imprensa Nacional.Casa da Moeda, 2003, p.131

 

 

A doença crónica de seu nome tédio: gente com muito tempo livre entre mãos.

A alucinação é total, quando o autor faz transcrições de disfuncionais diálogos ou descreve situações de violência despontadas porque alguém estava a roer as unhas ou porque apresentava um diferente corte de cabelo.

 

Este estudo abrange todas as classes, verificando-se padrões de comportamento semelhantes.

Em férias costumo ir para o Meco (...). Pá, costumo ir pá, com amigos, com a namorada e com os colegas, passamos lá montes de tempo, curtimos à brava campismo, nudismo e pá, 'tar à vontade, longe e perto da sociedade ao mesmo tempo, quer dizer, longe o suficiente para ninguém chatear e perto o suficiente pra uma gajo ir ao restaurante. (25 anos, artista, sexo masculino), idem, p. 137

 

As viagens constituem não apenas um domínio de afirmação juvenil como, por outro lado, esse domínio é utilizado para a realização de aspirações que para as gerações adultas só se concretizam a partir de poupanças conseguidas à custa do trabalho.

Alguns jovens que viajaram pela Europa com o sistema inter-rail acentuaram-me esse carácter difuso do "viajar pela Europa". Ao adquirirem o bilhete inter-rail não tinham em mente visitar um país concreto, mas usufruir integralmente do sistema de mobilidade. idem, p. 137