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smobile

conceitos sob o ponto de vista do observador

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conceitos sob o ponto de vista do observador

"Como a Arte antecipa a Ciência"

"Enquanto os cientistas começavam a separar os pensamentos nas suas partes anatómicas, estas artistas queriam compreender a consciência a partir do interior".

 

LEHRER, Jonah, "Como a Arte antecipa a Ciência - Proust era um Neurocientista", Alfragide, Lua de Papel, 2009. 

 

Este é um livro que bem poderia chamar-se "neurociência para totós".
Podemos ler e ficar com noções e trechos que ajudam a explicar como o nosso cérebro funciona e como percepcionamos a realidade.


Noções que abalaram os alicerces de então - estamos a falar de artistas plásticos, escritores, um cozinheiro e outras personalidades dos meados do século XIX e inicio do XX, que se destacaram na época das grandes revoluções artísticas e industriais.

 

 

 

 

 

Uma das questões sempre debatidas é o porquê da nossa mente simplesmente não ter um colapso: bombardeados pelas mais variadas sensações, o que é que une toda esta profusão de informação, impedindo a nossa desagregação?

A conclusão principal e que não passa de mais uma teoria é de que o Eu não existe.


Esta percepção a que muitos chamam de alma (os artistas) ou de "fantasma na máquina" (os cientistas) é tão somente o ruído provocado pelo funcionamento do nosso corpo - não nos esqueçamos que somos uma pilha ambulante, um ser vivo funcional e sensorial.

No entanto não responde ao que leva à desagregação da mente de alguns: o que é que funcionou mal.

 

Eis algumas noções (e outros apontamentos) apresentadas no livro, onde se sustenta a acima mencionada teoria.

 


1) O corpo

"Quando se corta a carne corta-se também a alma."

 

- Fusão entre corpo e alma: Walt Whitman (poeta) compreendeu que ambos são inseparáveis, isto é, a mente depende da carne - são os chamados "sentimentos físicos". Este modo de pensar contrariou o conhecido até então com Descartes (séc. XVII): a alma divina e o submisso corpo (a máquina);

- actualmente a neurociência confirma que as emoções são produzidas pelo corpo, que as sensações materiais são meios para o processo do pensamento;
- Walt Whitman chegou a esta conclusão observando os feridos da Guerra Civil (década de 1860): verificou que os que perdiam um membro continuavam a senti-lo como se ainda estivesse ligado ao seu corpo - a isto designou como a "percepção da carne fantasma" ou seja os "membros ilusórios", os "fantasmas sensoriais".

 


2) A mente

"(...) a neurogénese é a evidência celular de que nós evoluímos

para nunca mais pararmos de evoluir".

 

- George Eliot (escritora) abraçou o positivismo - uma corrente baseada no racional; o positivismo tem a pretensão de explicar tudo;
- a filosofia positivista, fundada por Pierre-Simon Laplace, acreditava que calculando todas as variantes conseguiria-se atingir os dados correctos. Com estes poderia-se prever com exactidão o comportamento humano - designou de "física social";
- o Positivismo acabou por perecer pouco depois de surgir: é impossível abranger todas as variáveis, somos demasiados imprevisíveis; mesmo Darwin defendia que a Vida só evoluía graças à desordem;

 

- George Henry Lewis para contradizer os Positivistas focava o exemplo do amor: "Não somos prudentes no amor; não escolhemos aqueles que devemos amar, mas aqueles que não podemos deixar de amar.

- o cérebro não é um órgão fixo: ele consegue curar-se ou produzir mais neurónios se este verificar necessidade de dar resposta a uma situação, como por exemplo, um propósito evolutivo;


- avança-se com a hipótese de que a depressão "em última análise pode ser provocada por uma diminuição de neurónios novos" dado que " as células recém-nascias fazem-nos felizes.".

 

 

3) O paladar

"A descoberta de um novo prato faz mais pela felicidade da raça humana

do que a descoberta de uma nova estrela".

 

- Existe um aminoácido "delicioso" mas que não é um dos sabores tradicionais (doce, amargo, salgado e azedo) identificável pelo nosso palato: trata-se do L-glutamato (C5H9NO4);
- delícia = umami; foi a introdução deste novo conceito que veio contrariar a ideia até então de que a língua não passaria de um músculo. Ideia esta inabalada desde Demócrito, séc. IV a.C.;
- a língua consegue identificar o umami isoladamente: é o sabor específico para uma proteína da qual o corpo necessita;

- os neurocientistas calculam que 90% do que nos apercebemos do paladar é fornecido na realidade pelo odor; Escoffier (séc. XIX) percebeu esta relação quente + aroma + paladar, revolucionando a cozinha francesa;

- no entanto o nosso olfacto pode também ser enganado pela nossa mente, ou seja, "saboreamos a primeira ideia", os nossos sentidos são influenciados pelo contexto.

 

 

4) A memória

"A sensação é para o escritor o que a experimentação é para o cientista."

 

- Sendo um doente crónico, Marcel Proust estava confinado ao seu quarto. Para redigir os seus romances recorreu à memória;
- o olfacto e o palato são os únicos sentidos que estão directamente ligados ao hipocampo, isto é, ao centro de memória de longo prazo; as memórias são despertadas e serão mais fiáveis se tiverem sido através destes dois sentidos;


- Proust alerta para que se desconfie das nossas próprias lembranças dado o nosso cérebro adaptar-se à experiência vigente, moldando a do passado: "as nossas memórias estão replectas de erros";

- o acto de recordar pode alterar a memória: trata-se da mentira na memória;
- a ironia proustiana mostra-nos que uma memória é sempre recordada como algo muito melhor do que na realidade foi;
- as lesmas-do-mar aplysia californica são as cobaias predilectas dos neurocientistas...

 


5) A visão

"Olhar é criar o que vemos" (...) dado que "a realidade é construída pela mente(...)".

 

- Paul Cezanne inverteu a corrente realista da época que se baseava na captação de uma imagem como se de uma fotografia se trata-se; as pinturas d Cezanne focam a subjectividade da visão - a visão não é uma soma de luz dado requerer reflexão no que se vê;

 

- Baudelaire foi uma das vozes que mais se insurgiu contra a fotografia; para este o fotógrafo não passava de um materialista e que a fotografia seria sempre "a serva das ciêcias e das artes, mas a serva mais humilde (...)", nada criando ou acrescentando;

 


- as imagens ausentes de Cezanne foram pioneiras para a compreensão do porquê do cérebro preencher os vazios de uma imagem.


6) O som

"A dança que era sobre a ausência de ordem".

 

- O som pode levar uma multidão à violência. Isto é exemplificado com a "Sagração"  (Stravinsky) em que esta "insulta a tradição sinfónica", desfigurando a tradição e desmantelou-lhe as ilusões, provando que o nosso conceito de belo é maleável; ou seja, o cérebro não conseguiu identificar o padrão nem o som;
- a neurociênca sabe actualmente que a noção de som deve-se ao trabalho/ alteração constante no córtex auditivo;

- com Stravinsky iniciou-se o processo de desconstrução do som mas foi em 1908 como modernismo de Arnold Schoenberg que tomou expresão;


- o cérebro é obcecado por ordem, assim, a "música só nos excita quando faz com que o córtex tente para descobrir a sua ordem", se os padrões forem sempre os mesmos, consideramos a musica "enfadonha";

 

 

- a "Sagração" tornou-se num cliché do Modernismo: o córtex auditivo encoraja a ouvir o que já conhecemos - estes soam melhor, "fomos contruídos para odiar a incerteza da novidade";

 


7) A escrita

 

- A escrita não tem necessariamente de ser coerente dado esta, tal como a pintura, não é um espelho da realidade; as palavras são ferramentas que apesar de identificarem algo, são simbólicas;
- Gertrude Stein brincava com o absurdo, subvertendo toda a estrutura gramatical; provou que a mente não se cinge a esta estrutura, pois pode seguir as suas próprias regras se assim o entender, ou seja, as palavras podem ser combinadas na forma desejada - exemplo: "embora raramente diga-mos que o vermelho é cinzento, não há regra linguística que proíba uma frase destas";


- a gramática universal é real, inerente ao ser humano; todas as línguas partilham a mesma estrutura; a estrutura da linguagem é inevitável, algo que intuitivamente se desenvolve;

 

*num aparte: numa rebuscada comparação, aqui está a dificuldade de compreensão na leitura da primeira estória de "A Voz do Fogo" de Alan More, ainda que neste caso, ele deturpou a gramática e não a estrutura em si.
"Filho de Hob desaparecer como porcos dentro de coisa-de-porcos onde Eu estar?",A Voz do Fogo, p.31

 

- o nosso cérebro obriga a que exista uma estrutura num texto: inconscientemente buscamos um sentido numa frase e rapidamente queremos corrigi-la gramaticalmente.

 


8) O "Eu"

"O Eu é uma ilusão, um ardil da mente que emerge do caos de pensamentos".

 

- O que mantém a mente/ cérebro coeso é a noção de Eu. Esta noção é percebida através da interligação dos pensamentos;
- o ser humano é formado por fragmentos que se mantêm unidos por algo que não é visível: para alguns, o Eu é o fantasma da máquina corpórea;

- Virgina Wolf descreve a pluraridade do Eu: "somos constituídos por impressões em mudança constante que se mantêm unidas com a fina camada de verniz da identidade"; "vivemos em perigo de nos desassociarmos"; o "Eu emerge do caos de consciência";

 

 

 

- graças aos dois hemisférios (o esquerdo e o direito) todos os cérebros têm pelo menos duas mentes diferentes. O que une estas mentes díspares é o tecido caloso entre elas;

 

- o Eu é o isolar uma determinada sensação em detrimento de outra, ou seja, é o focar a atenção em algo; é um Eu imaginário e não existe um "fantasma na máquina", o que existe é uma "vibração na máquina".

 

 

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Duas (outras) pequenas curiosidades:


- este livro menciona o "nosso" neurocirurgião António Damásio (p.36);

 

- compreendi a razão porque o cheiro a suor me repugna ao ponto do limiar do vómito: trata-se de um esteróide, a androstenona química, que apesar de ter sido proposta como uma feromona humana, para um grupo de pessoas, trata-se de um odor extremamente desagradável - assemelha-lhes a urina:


> existe um grupo que não o consegue detectar;
> existe um segundo grupo, que o considera ou tolerável, agradável, doce, almiscarado ou perfumado.