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smobile

conceitos sob o ponto de vista do observador

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A Presença da Morte - Cultura e Arte Funerária Contemporânea

"As imagens da morte suscitam mal-estar" (...)

"A indiferença dissimula a perplexidade."
Isabel Rith-Magni

 

A Imagem encontra-se associada à Morte e é com o recurso a ela que alguns artistas procuram ultrapassar o tabu em torno deste tema. No entanto, uma das suas inquietações sempre que se abarca este tema é delinear a barreira do que é invasivo/ obsceno.

 

Algumas ideias que antes de mais, se deve reter:
- não desaparecemos simplesmente porque o nosso corpo deixa de existir: a nossa memória mantém-se viva;

 

 

 

# "Ausências" por Gustavo Germano


- os corpos não prevalecem, mas modificam-se;
- a ideia da "morte privada/ invisivel" terá sido introduzida no final do século XVII com a crescente preocupação com a higiene e mudança de atitude social:

 

"(...) através dos actos higiénicos, sociais, privados e públicos, a sociedade burguesa atingiu um efeito colateral" (...) "o de evitar a visão dos moribundos".
"O acto de morrer, que outrora era um processo público na vida do indivíduo (...) é cada vez mais expulso do mundo percebido dos vivos(..)".

 

- o tabu (diferente de receio) permite a cegueira nas pessoas - p.ex. a recusa  em aceitar a existência de assassinatos maciços por alguns é a negação da evidência no seio da sociedade;
- revolução na cultura funerária: a existência de bosques especificamente preparados para receber cinzas ou restos mortais - o colectivo em detrimento do individual.
- o modo de retratar a Morte sofreu evolução ao longo dos tempos: enquanto na Idade Média era apresentado o moribundo atingido pela peste, actualmente, a Morte é inócua.
- existe a Morte como processo biológico e a morte como processo social.

 

 

1) (alguns) Artistas


"O tratamento da morte pela arte pode (...) ajudar a superar o que Montaigne chamou de *artificio do povão*, o não pensar nela.
Representar o irrepresentavel talvez incite a aprender a viver, aprendendo a morrer"
.

 


Os "mortos adormecidos" do fotógrafo Rudolf Schafer, ausentes de marcas de violência ou doença, remete-nos para uma dimensão religiosa: a vida após a morte.

 

Gundula Schulze Eldowy, mostra-nos a realidade crua da Vida. Autora de Tamerlan, ao longo de oito anos acompanhou a degradação de saúde de Elisbeth Kordel, uma idosa que conheceu num jardim de Berlim.

 

Teresa Margolles numa das suas obras dedicada ao tema recorre ao som captado numa autopsia - Sonido de la Morgue. Mas também é conhecida pelo seu papel activo de intervencionista social: dá voz às famílias de centenas de desaparecidos e vitimas de homicídios no México.

 

 

# por Rudolf Schafer.

 

 

2) A fronteira do vivo e do morto.
 

O conhecimento da Morte varia consoante o contexto cultural.
Nos séc. XVIII e XIX as certezas na constatação do óbito foi colocado em causa com a consciencialização da catalepsia: "a fronteira entre a vida e a morte tornou-se menos rígida".
 

Actualmente, estas questões são novamente levantadas com a verificação de que a paragem cardíaca já não é de si suficiente para determinar a morte do indivíduo.
Um novo conceito é introduzido: a morte cerebral.

 

 

3) Sociedade: cultos, turismo e media
 

É díspar a postura da América Latina face à Ocidental Europeia e às demais: ambas cultura receiam-na, mas enquanto que a primeira abraça-a e encara-a, a segunda esconde-a.

A vivência da Morte está de tal modo enraizado na cultura mexicana que actualmente existe um "movimento religioso popular", a Santa Morte.
Ao contrário de alguns que defendem a sua raiz histórica/ ancestral, este culto será mais recente. Os primeiros indícios datam de 1960 denotando maior desenvolvimento 30 anos depois com a expansão da crise sócio-económico.
Este culto, que tem como patrona uma Santa com uma miscelânea iconográfica muito rica, relembra a Virgem de Guadalupe com um penacho asteca, e que sob o seu manto escuro ostenta ossos descarnados como corpo.

 

A Morte no México tornou-se de tal modo num chamariz turístico, proliferando "templos" como a "Ponte para o Paraíso de Xcaret" (de 2004), apresentado aos visitantes como uma "nobre herança Maia".

 

Estudos têm sido desenvolvidos em torno desta envolvencia fúnebre no México, começando algumas vozes a questionar-se quanto à autenticidade da herança do "Dia dos Mortos".
"uma invenção cultural (...) no governo do presidente Lázaro Cárdenas, (...) que queriam ressaltar a identidade pré-hispanica dos mexicanos."

 

Na Colômbia, a cada 3 dias desaparecem 2 pessoas. Os cadáveres, muitos mutilados e/ou em avançado estado de decomposição, são "pescados" dos rios do país e a população desenvolveu a sua vivência quotidiana em torno destes: incorporam os seus familiares desaparecidos.
 

A Fundação Dois Mundos, faz o que pode para denunciar ao mundo estes crimes sem rosto..

 

Na Alemanha, existe o hábito de colocação de citações bíblicas ou de autores/ poetas de renome nos anúncios fúnebres nos jornais.
Actualmente, estes têm vindo a ser substituídos por citações de John Lennon, Jim Morrison ou Bob Dylan.
 

Num humor mórbido, alguns, publicitam a própria morte para poderem rir das reacções dos demais ao constatarem a fraude.

 

# O novo ícone: Santa Morte.

 

 

4) A morte no cinema
 

Também o Cinema tem parte activa na criação da imagem da Morte:
- o tiro: "o corte abrupto e ruptura com a vida";
- a mão: "a mão que desfalece, deixa cair alo, surge da água ou da cova", representa a transformação do homem em algo divino: ela a partir do ecrã, convida o espectador a esticar a sua para agarra-la;
- a perseguição: a morte como "uma aceleração (...) maior que a vida";
- a câmara lenta: é a amplificação da morte - o herói, tal como em vida, merece mais tempo de antena, é o "intensificar do escândalo da sua morte";
- o flashback.

 

 

5) Morte do "eu digital"
 

A oferta na internet de cemitérios virtuais à útil prestação de serviços de cuidados paliativos é vasta.
Esta tendência demonstra o carácter de voyeur que na internet o alvo não é o famoso mas o cidadão comum.

Esta proliferação de sites/ foruns, e o que fazer com os blogs inactivos cujos proprietários faleceram, levanta outras questões: "quando morre o eu digital?"

 

Uma das medidas avançadas por alguns é a adopção de luto por um ano, findo o qual, são apagados os dados da rede.
Segundo estes, só assim se prevenirá a quantidade de blogs fantasmas que irão existir na rede.

 

 

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Este infimo apanhado foi retirado da seguinte bibiografia:
AAVV, Presença da Morte, Alemanha, Gothe Institut, 2008, ano 50, n.º 98.